My bullying

Por Arnaldo Bloch - arnaldo@oglobo.com.br

Confesso: fui vitima de bullying nos tempos de escola, o colégio judaico A. Liessin, na Visconde de Ouro Preto (com a transversal em chão de terra até o campo de futebol) e, mais tarde, na esquina da São Clemente com a So­rocaba. Na época usávamos uma porrada de pala­vras - inclusive a própria palavra "porrada" - para designar o que hoje se convencionou chamar de bul­lying. Não era, contudo, porrada de quebrar dente nem osso. Nunca ninguém morreu ou ficou aleijado. Eram socos que se esgotavam num susto. Empur­rões que derrubavam. Chutes que deixavam marca roxa. E a intimidação moral, essa, o horror.

Eu levava muita porrada (soquinhos no braço e no estômago, sufocantes), tapas estalados com as cos­tas da mão no saco, puxões de cúeca sanguinolen­tos. Principalmente do vilão da turma. Ele queria que eu reagisse. "Vou fazer de você um homem". Mas, mesmo tendo chegado à faixa verde do judô, eu tinha medo combater à vera. Achava que ia morrer, perder um olho, sentir dores lancinantes.

Era filhinho de mamãe. E mamãe não queria que eu fosse às colônias de férias dos movimentos judai­cos de esquerda. Não por causa da esquerda, mas do seu medo de que eu pegasse tifo. Tétano. Meningite. Ou arrebentasse a cabeça num córrego.

Todo ano eu via o pessoal voltar com uns arra­nhões, eventualmente um gesso, contando histórias sobre ter sido empastado à noite e acordar num puta frio de serra com a cara, a bunda e talvez até além­bunda untadas de pasta de dente. Mas todos volta­vam mais fortes, livres, soltos, contando histórias de travessias de rios e beijos na boca.

Eu ficava empacado na timidez. Magoava-,me o "sa­canear", a mágoa ficava evidente, e virava bola de neve até os ápices do riso coletivo e da humilhação de me ver, por exemplo, à janela constatando que mi­nha mochila e todo meu material foi jogado num can­teiro de obras. Ou ouvir uma garota de quem você é a fim te chamar de bundão.

Sim, o "pele". O saco de pancadas. Mas a verdade nua e crua se impõe: eu era mesmo um bundão. O quanto a culpa era da minha adorável mãe, do meu querido e bonachão pai, da genética, das dinâmicas psicossociais ou de mim mesmo (senhor do meu ser e da minha covardia), não importa. Vejo isso hoje. Só que à época eu culpava o mundo, e aqueles crápulas que judiavam de Arnaldinho, o menino bom, mere­ciam toda a fúria dos céus. E o menino bom passava as noites imaginando formas de matá-los, trucidá-­los, torturá-los. Nunca levei o plano a termo.

O vilão tinha razão. Por mais que a galera se ex­cedesse, despejando as próprias mágoas no mais fraco, era a minha pose, meu ar superior, meu silêncio humilhado e ofendido, que os ofendia. Acabava no meio da roda por uma ânsia deles (primitiva) de que eu descesse do pedestal, misturasse-me ao povo (mesmo que o povo fosse uma elite), saísse no tapa, no abraço, na correria, no vamos-ver.

Começara cedo. No maternal me vejo bem peque­no numa caixa de areia com dois amiguinhos e, de repente, levanto-me furioso, levo meu balde e minha pá e deixo-os lá, aos risos. Não recordo uma palavra. Só a desconfiança de que eu já era o pato de todas as piadas, o bebê chorão. Por livre escolha.

Uma vez, já no primário, me vi chorando. O vilão se aproximou e disse: "Isso, chora, desabafa". Pare­cia de fato querer me ajudar. Éramos amigos. Con­vidava-me à casa dele. Levava minha guitarra laranja junior com o pequeno amp. Ele tinha uma bateria. Fazíamos um som. "Era um garoto, que como eu, amava os Beatles e Rolling Stones".

Mas na escola o armistício era anulado. E muitas vezes ultrapassava a faixa que divide pedagogia he­terodoxa e abuso cruel. Como aquela tarde no meio de uma aula de geografia. Um peteleco na bochecha a cada três minutos. Alguém aí já levou peteleco na bochecha? É das dores mais absurdas que há. E eu aguentava sem um pio. Até ecoarem nas têmporas latejantes as próprias palavras do vilão: "Reage, Àr­naldo. Reage!". E larguei o braço, atingindo em cheio seu sobrecenho com meu cotovelo ossudo.

Uhhh! Essa doeu ... Tanto que o vilão cobriu a cara.

Ficou recolhido pelo menos dois minutos. Recupe­rado, revidou com dois socos moderados pouco aci­ma do queixo, na lateral. Afundei a cabeça entre os braços na escrivaninha. Chorei sem fazer um só ruí­do.

Recomposto, fui à professora e pedi para ir ao banheiro, sem nada dizer sobre o ocorrido. Na volta ele me recebeu com o rosto sério.

- Finalmente, você virou um homem - disse, apertando minha mão.

Estava ainda longe de ser verdade. O vilão, e ou­tros, me sacaneariam ainda muito até que seguísse­mos para a vida universitária. Hoje, somos amigos de encontros eventuais, e ele se transformou numa das pessoas mais gentis e pacíficas que conheço. Foi uma figura central da minha formação, e a ele sou grato por tudo. Bom, por quase tudo.

Contei essa história porque me preocupa o uso do termo "bullying" para demonizar toda molecagem e vitimizar toda fraqueza. Cada criança tem seu jeitão e sua porção de culpa por seus próprios dissabores. A violência desmedida deve ser contida, mas não às custas das lições que a experiência da vida franca ensina, com toda a dor que a acompanha.

 


Bibliografia/Fonte:
Jornal O GLOBO, sábado, 23 de abril de 2011 – Segundo Caderno
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